No intervalo do meu curso de Java, no sábado, fui tomar café na Livraria Saraiva. Sempre fazemos isso, eu e meu irmão; mas neste sábado estava sozinho. Por estar sozinho quase perdi a hora em devaneios guiados pelos produtos em exposição. Logo vi a capa de Veja com o assassino do Realengo. Que tristeza! Me lembrei tanto do "M, o Vampiro de Dusseldorf" do Fritz Lang! A cena do julgamento é tão atual! Um monte de bandidos julgando o monstro porque seus negócios espúrios estão sendo prejudicados pelo pânico que o assassino causa. Especialmente para o Brasil onde os clamores por justiça quase sempre não tem nada a ver com justiça e sim com vingança. Não é a justiça que move o populacho quando há um caso de comoção nacional. A justiça é cega, não deve se prestar à vingança! Lembram-se do caso Isabela e de como um monte de desocupados perdia o tempo na porta da delegacia pedindo justiça? Tive uma discussão (saudável e civilizada, claro) com a Soninha (candidata à prefeita na época) porque ela argumentava que a televisão transformava o caso em espetáculo, e eu contra-argumentei dizendo que a televisão mostrava o que a ralé queria ver. Não chegamos a lugar nenhum. Concordamos, enfim, de que a causa alimenta a consequencia e vice-versa e logo uma confunde-se com a outra. A TV dá o que o povo quer e o povo quer o que a TV mostra. E o que o povo quer não é ver um julgamento ordeiro e que haja a punição devida. O povo quer é ver os assassinos sofrendo, presos, miseráveis. Eu confesso que para a família, este tipo de sentimento é compreensível. Fosse eu parente da menina, com certeza iria querer ver a "justiça" me vingar, ou, quem sabe, "fazer justiça com as próprias mãos". Mas o popular procura a sensação vã de satisfação quando o malfeitor sofre porque, com isso, ele se convence de que o "crime não compensa", de que "aqui se faz e aqui se paga", de que "a justiça divina foi feita". É para convencer a si mesmo de que o pecador é punido com sofrimento. Pra lembrar a si mesmo de não pecar porque o fim do pecado é a morte! É o sacrifício do animal a Deus que expia a própria culpa. Eles não sabem disso, claro... Não sabem de quase nada sobre si mesmos. Por isso se revoltam quando ouvem falar em "Direitos Humanos". Por isso defendem a pena de morte. A morte de um malfeitor é a supremacia da sensação de "dever cumprido". Mesmo que não adiante pra nada, mesmo que comprovadamente não diminua o índice de crimes, mesmo que isto cause muitas injustiças irremediáveis. É para o fundo da psique deles que este sacrifício fala. É um sentimento tolo e primitivo e não tem absolutamente NADA a ver com justiça. Ah... E só mais uma coisa: Bem ao contrário do que Jesus pregava, os ditos cristãos costumam ser os piores. Todo os religiosos, pra ser mais sincero. Mas é que os cristãos são mais hipócritas na medida em que são os que mais se afastam do que a sua crença tem de mais fundamental!
Mas aí acontece uma coisa dessas. Um louco entra numa escola e mata um monte de crianças. Tudo vira de ponta cabeça. Sabem por que eu tanto me lembrei do filme do Fritz Lang? Porque não há catarse possível neste caso. O monstro do filme não era monstro, não era "odiável".
| Peter Lorre em "M - O Vampiro de Dusseldorf" (1931) de Fritz Lang |
O Peter Lorre intrepretou brilhantemente um serzinho patético, parecendo um inseto com seus olhos esbugalhados, pequeno e frágil. A sua figura, por mais que seja réu confesso de atrocidades, não dá pra inspirar vingança. Tanto pior que os seus algozes sejam de índole tão podre quanto a dele. O Fritz Lang era um mestre. Sabidamente genial pela plástica de seus filmes (Metrópolis, claro) ele foi mais genial ainda quando expôs toda a fragilidade do que os humanos "civilizados" tentam enxergar como "justiça". Como odiar o que não tem explicação? Como se vingar do que não pode nem ser classificado como maldade e sim como puro impulso destrutivo? Esqueça as noções de "direitos humanos" ou de "perdão". Pense somente nisso: Como se vingar de algo que não tem nem noção do que faz? Como as pessoas podem se sentir recompensadas em ver este específico criminoso sofrer ou morrer se ele mesmo não se importa com isso? Se ele mesmo não se preocupa com a sua sorte? Que castigo pode ser aplicado a isso?
Fritz Lang era grande. E a grande arte é eterna justamente porque toca na essência e não só na superfície.
Depois tive outros devaneios olhando outras coisas. Mas outra hora conto. Não dá pra misturar tanta informação.
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